CAMPANHA NACIONAL CADÊ O CACHÊ?

by Simples Rap'ortagem | 22:01 in |

“Seja cantando, dançando ou encenando 
Em cima do palco, tamo trabalhando 
Grafitando, discotecando ou recitando 
Em cima do palco, tamo trabalhando 
E não importa quantos anos tem atuando 
Em cima do palco, tamo trabalhando 
Mesmo que o palco seja o chão repita sem engano: 
Em cima do palco, tamo trabalhando” 
Simples Rap’ortagem - Salvador



Em 2006 quando o Movimento Hip-Hop baiano comemorava dez anos, a Simples Rap’ortagem completou 12. Até aqui havíamos realizado diversos shows, porém poucos com retorno financeiro. Assumimos que éramos também culpados, uma vez que ao dizer SIM aos convites para realizar shows sem cachê, nos tornávamos coniventes. Decidimos: ou a banda acaba ou tomaremos uma postura radical que mude definitivamente essa condição. Como manter ensaios, transporte, gravações, compra e manutenção de instrumentos, contratação de músicos com essa postura de conivência? Fizemos um cálculo e concluímos que, toda vez que aceitávamos tocar sem cachê, estávamos na verdade pagando para tocar. Sendo assim, compus o rap Cadê o Cachê? E, a partir daí, assumimos definitivamente a postura ousada de dizer NÃO a convites de apresentações sem pagamento. Tal atitude causou admiração em outros adeptos do Hip-Hop, o que nos motivou ir além. Criamos a Campanha que foi intitulada Campanha Cadê o Cachê? Para nossa surpresa, representantes de outros segmentos artísticos nos procuraram, demonstrando interesse e apoio à iniciativa. Assim, desenvolvemos o Manifesto Cadê o Cachê? que justifica a importância de dizer NÃO aos convites sem remuneração e estabelece acordos mútuos baseados em posturas profissionais. Logicamente que dizer NÃO tem suas exceções e a raiz do problema está em confundir militância com o lado profissional. Artistas de outros estados aderiram à campanha que passou a ter a denominação CAMPANHA NACIONAL CADÊ O CACHÊ? Quando a Simples Rap’ortagem iniciou a Campanha, ficou aproximadamente um ano sem receber convites para apresentações, pois sabiam da nossa postura. Isso mostrou que estávamos no caminho certo, já esperávamos esse choque. Passado esse período era nítida a mudança no trato com a banda. O que era exceção virou a regra.

VÍDEO LEGENDA COM A MÚSICA CADÊ O CACHÊ?




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DIFERENCIAL DA CAMPANHA

“Apoio a campanha "Cadê o Cachê" completamente. Já nos deparamos inúmeras vezes com pessoas querendo que toquemos de graça, ou por uma "ajuda de custo", que pra falar a verdade não ajuda nada. Produtores que por um trabalho de divulgação, querem participar do lucro (que já é pouco) que conseguimos com nosso suor. Como Cacilda Becker já disse: Não me peçam de graça a única coisa que tenho pra vender". 
Joana - Pernambuco 03/10/07 
Trecho extraído da comunidade da Campanha no Orkut. 





Há diversas iniciativas que são caminhos importantes para a profissionalização, mas não atuam objetivamente na intenção de mudar a cultura existente que desvaloriza a dimensão profissional da arte, mas somente em possibilitar que o indivíduo ou grupo tenha condição de alcançar algum destaque dentro de um cenário excludente. Para além disso, a Campanha Nacional Cadê o Cachê incitou uma mudança na cultura de desvalorização, através de uma postura coletiva, um posicionamento político que todos (as) artistas puderam adotar, pelo Manifesto Cadê o Cachê. Trouxe também de modo objetivo, uma alternativa aos que se articulam pela transformação social, estimulando o fortalecimento dessa articulação, por intermédio da sustentabilidade econômica. Para os grupos que seguiram o compromisso contido no Manifesto o resultado gerou benefício direto e conseqüentemente impactado a cultura de desvalorização do trabalho profissional dos artistas, contribuindo para uma nova mentalidade de respeito e valorização por esse trabalho, como base apenas na Comunidade do Orkut, tivemos informações de 18 estados sensibilizados com a Campanha.


“Eu sou professora de musica na filarmônica da cidade e vocalista líder de uma banda de MPB, estou apoiando esta Campanha por saber da grande necessidade que o ser humano tem da arte, sendo assim ela precisa ser respeitada e valorizada como a tal, na minha região tão pobre de arte os artistas que ainda existem tentam sobreviver em meio a tanto desrespeito no que se refere a remuneração”.
Viviane Ramos - Serrinha-BA 06/10/07
Trecho extraído da comunidade da Campanha no Orkut.



MANIFESTO CADÊ O CACHÊ? 


O Hip-Hop e outros seguimentos artísticos têm sua própria articulação em comunidade. Sabemos o momento de se apresentar voluntariamente, temos nossos próprios projetos sociais. É hora de não mais se confundir profissionalismo com militância. Assim como um CD ou DVD, a apresentação de um show, de uma performance ou de uma peça são produtos e como tal envolvem investimento de ordem financeira para sua produção e permanência. Buscamos qualidade para as nossas produções, portanto a compra de instrumentos musicais e sua manutenção, figurinos, ensaios, cenários, gravações, transportes, tudo isso são custos que fazem do cachê uma necessidade.

Nós artistas, estamos de olhos abertos para aqueles que se mascaram de parceiros nos propondo apresentações voluntárias em troca de lanche, transporte e divulgação. Quem propõe isso são pessoas sem noção ou com juízo fraco. Sem sensibilidade para compreender que nossa arte é o nosso trabalho, ignoram o significado de você ou seu grupo se manter anos buscando condição para viver do próprio talento.

O lanche é importante, mas nossa fome é de sobrevivermos da própria arte. Sem cachê não tem acordo. A condição mínima de transporte que será aceita é a que se compromete na IDA [até às 21h], em pegar todos os artistas em um único local e na VOLTA [independente do horário], deixar cada um em sua própria casa. Mas sem cachê não tem acordo. E essa tal divulgação é sem dúvida o maior dos mitos, a pior das desculpas para não se oferecer cachê. Super valorizam uma suposta “divulgação” para o artista ou grupo, mas que na prática não traz nenhum resultado significativo. Fato mais que ridículo eles colocam essa divulgação como se fosse um prêmio. Se apresentar em troca de divulgação é papo furado, essa proposta é uma ofensa para artistas e grupos que já tem uma história. Divulgação de verdade é, por exemplo, botar uma música de uma banda tocando dez vezes por dia numa grande rádio durante um mês, o resto é conversa fiada. Eu quero é cachê!

Na hipótese de um convite para se apresentar em evento aberto em que não se cobrará bilheteria, a pergunta é: se esse evento veio de um projeto então porque não se previu cachê para os artistas e grupos? Porque no fundo eles sempre te consideram como artista de brincadeira. O trabalho deles é sério, o seu não. Então chega!

Sem cachê não tem acordo. Cada artista ou grupo terá a liberdade para negociar o valor do cachê, baseado na trajetória e projeção que já possuem. Em cada cidade os grupos podem se articular e estipular valores mínimos para cachê pelo qual não abrirão mão.

Aconselha-se que todos os artistas e grupos evitem fazer acordos de boca, sempre cobrem ou apresentem um Contrato, simples que seja, ou mesmo um Termo de Compromisso bem elaborado pois esse é o nível de seriedade que se precisa para buscar garantia de que o combinado seja respeitado.

Portanto sem cachê DIGA NÃO! Todos e todas DIREMOS NÃO! Por não sermos coniventes com a exploração de nosso trabalho artístico; Porque foi dizendo SIM que muitos guerreiros e guerreiras se desgastaram e acabaram “abandonando o barco” e muitas vezes hoje se mantém através de trabalhos pelo qual não sentem paixão; Porque somos responsáveis pelo que é nosso; Porque mudança só acontece com atitude; Dizer NÃO é uma postura pra quem tem determinação, indispensável para impor respeito pelo seu trabalho e de todos os outros que fazem parte desta Campanha. Resumindo porque sem cachê não há milagre; Diga NÃO sem receio e vergonha. Diga NÃO dá forma que melhor desejar: diga NÃO com jeitinho, diga NÃO com firmeza, NÃO com sutileza, um NÃO poético ou quem sabe um NÃO bem charmoso, enfim, um NÃO bem dado na medida de nosso respeito e criatividade.